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domingo, 12 de outubro de 2014

Não importa quem fez o quê, mas sim quem sabia e nada fez (a investigação ao BES)

Este post da Maria João Alves no Corta-Fitas acerta na mouche: a comissão de inquérito não parece querer saber do BES, mas sim de quem sabia o que lá se fazia, mas nada fez ou nada disse. Trocado por miúdos: aqui na tugalândia continuamos com a mentalidade pidesca de acreditar que as instituições do Estado tudo sabem e tudo controlam.

Neste momento parece-me já claro que houve manipulação de números e resultados, pois não é de um dia para o outro que um banco como BES colapsa, com mais buracos que um queijo suíço. Ora se houve números martelados como iriam o BdP, o Governo ou a Troika detectar o rombo atempadamente?
Só alguém muito ignorante acredita que é possível numa auditoria de meia dúzia de dias, ou num teste de stress (de quê?!), detectar seja o que for. Não sejamos também ingénuos, ou desconhecemos porventura que os auditores comem aquilo que lhe põem no prato? Mais difícil ainda seria numa estrutura accionista como a do GES que é um autêntico novelo. Só quem estaria lá dentro, quem punha a mão na massa, é que saberia o andava a fazer e o resultado disso mesmo.

Esta ideia é perigosa, muito perigosa mesmo, pois além de levar o Estado a tentar reforçar, ou a não abdicar, dos elevados poderes que já tem, leva a acreditar que o país não é mais que uma coutada de uma meia dúzia de sujeitos, para os quais somos gado e pouco mais. Mas para que isso não se concretize devemos exigir que os verdadeiros responsáveis do desastre arquem com as consequências das suas brincadeiras. Quem sabia ou não sabia é de somenos importância. A mim interessa-me saber quem fazia o quê e porquê. Por tudo isto não me parece que o BES seja caso para uma comissão de inquérito, mas sim para investigação pela Procuradoria Geral da República.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Duas notícias, uma realidade



A primeira é uma péssima notícia que mostra o clamoroso autismo de um Estado que insiste em extorquir via impostos o que não existe: riqueza.

A segunda é uma excelente notícia e mostra como os nossos trabalhadores, tal como as empresas, depressa perceberam - com a crise - que é melhor fazer pela vida lá fora. Querem os melhores cá dentro façam por isso. Se bem que lendo a primeira notícia isso seja difícil.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Diz que somos um país capitalista, desenvolvido e essas coisas todas


Destaco esta parte:

"Estou devidamente licenciado para exercer a actividade, já fui autorizado pelo Governo Regional, já tenho as licenças passadas pela Câmara Municipal, mas a Direcção Regional de Transportes alega que eu não posso iniciar a actividade."

Reparem na quantidade de instituições do Estado que estão metidas ao barulho neste caso! A culpa, já tou a ver, deve ser dos malvados liberais. Precisamente aqueles que passam a vida a denunciar os abusos de um Estado omnipresente, todo-poderoso e - acima de tudo - arbitrário nas suas decisões, como podemos ler nesta notícia.
Ou então não, a culpa é só deste sujeito que cometeu o pecado capital de querer ser empresário. Fosse antes sindicalista...

E somos um país livre, não somos?

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Sobre impostos, empresas e pessoas

Há um chavão muito popular entre a nossa sociedade que diz que aquilo que é uma empresa são as pessoas, são os seus trabalhadores, principalmente quando toca a reivindicar melhores condições e salários.
A nossa esquerda e os sindicatos adoram relembrar-nos deste facto, mais do que óbvio e elementar, motivo pelo qual me faz espécie esquecerem este pormenor quando chega ao pagamento de impostos pelas empresas; ora se estas são constituídas por pessoas, quem senão estas para pagar os impostos que recaem sobre as mesmas? Abro aqui um parêntesis para fazer já uma declaração de intenções: sou contra todo e qualquer imposto sobre as empresas, nomeadamente sobre o suposto lucro. Todo e qualquer imposto sobre uma empresa recai única e exclusivamente sobre dois tipos de pessoas: accionistas e trabalhadores; as empresas não pagam impostos. Mais: é uma perversão total taxar o suposto lucro obtido com trabalho e consumo já previamente taxados, quando na verdade qualquer gestor que saiba o que é fazer pela vida sabe que os "lucros" não existem, só existem os custos futuros. E digo suposto porque o lucro como o definimos é um mito, não existe como tal, não é objectivo, mas sim consequência de determinada actividade, a prova da validade da mesma; por isso prefiro a expressão de nuestros hermanos: benefício.
O socialismo é assim, e desde sempre, o maior entrave ao crescimento económico, pois na sua infinita bondade de tudo controlar, decidir e distribuir, lá do alto da sua caridade centralizada, necessita de cada vez mais recursos, vai daí taxa-nos pelo simples facto de trabalharmos, quando trabalhamos porque temos que comer, taxa-nos quando comemos e volta a taxar quem nos deu de comer não vá este obter algum lucro à custa das nossas necessidades. Assim, é óbvio que mais impostos sobre as empresas são menos salários e menos investimento, resumindo: mais pobreza. Se mais impostos resultassem numa sociedade mais justa porque não taxamos tudo a 100%? No fundo porque não nacionalizamos tudo o que mexe? Talvez Cuba e a Coreia do Norte sirvam de resposta, mas para mal dos nossos pecados, infelizmente, não nos decidimos, pois continuamos com essa coisa de "economia mista", seja lá o que isso for.

Publicado também aqui.

domingo, 23 de junho de 2013

Portugal existe?!

O nosso país começa a ser de tal forma surreal que um tipo dúvida que exista mesmo um local assim.

Um dos ministros mais liberais do governo mais liberal de Portugal quer incentivar o emprego daqueles que menos necessitam:


Querem ver que dos 20% de desempregados há imensos doutorados e nós não sabíamos? Quer-me parecer que o problema mais grave é mesmo na ausência de qualificações. 
E a mim parece-me que o problema de reter cérebros tem a ver com uma coisa que escasseia muito no país: dinheiro para os pagar; e não será com medidinhas que a tesouraria das empresas passará a tê-lo.
A gestão de empresas é algo que não assiste o nosso governo mais liberal de sempre.

Menos mal que existe um Seguro contra a desgraça.


Que é como quem diz: atacai o pote que ainda há muito por onde comer.
Ou isso julgam eles. Pois só assim explica a pérola de assumir como prioridade política para as câmaras a criação de postos de trabalho no país. Nada mais fácil: é triplicar o número de funcionários em cada uma e assunto resolvido, naqueles Municípios onde a câmara já é a maior entidade empregadora passará a ser a única. Será o paraíso socialista em todo o seu esplendor.

Bem nos pode valer Nossa Senhora de Fátima para nos salvar de tamanha desgraça.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Exportar por exportar mais vale estar quieto

Uma das vantagens de trabalhar no estrangeiro, principalmente num mercado onde existem muitas empresas portuguesas, é permitir conhecer melhor a verdadeira natureza dos nossos empresários.
É já um lugar comum afirmar que temos que exportar, temos que nos internacionalizar, não conseguimos continuar a viver do que produzimos no quintal, mas a verdade é que a nossa classe empresarial ainda é muito imberbe na forma como aborda um mercado externo. Trabalhando na área dos transportes internacionais e logística vejo isto em primeira mão. Chega a ser confrangedor ver como muita gente julga que exportar é encher um contentor, colocá-lo num navio, descarregá-lo no porto de destino e já está, muitos chegam a não saber das suas responsabilidades inscritas no incoterm da factura (se é que sabem o que é um incoterm!). Não há a preocupação de conhecer a legislação local, as regras das instituições envolvidas, os documentos necessários, as restrições ou condições para alguns produtos ou, mais grave ainda, os custos das operações. Há gente tão obtusa para a qual a incompetência é de quem ele contratou para transportar essa carga mas que é impossível entregar, porque a documentação recebida para o efeito não está conforme as normas locais, já que ele "não percebe nada disso, apenas quer exportar e é para isso que está a pagar". E até paga e paga demasiado, porque não há a preocupação com timmings, os documentos solicitados ficam muitas vezes a dormir não se sabe onde, e como tempo custa dinheiro, e em Angola custa mesmo muito dinheiro, os custos disparam, os prazos já lá vão e o preço de venda fica estratosférico; competitividade é ainda um palavrão abstracto para esta gente.
Existe de tudo: desde o pedreiro lá da aldeia que exporta um contentor e julga-se já um grande empresário, mas demora uma eternidade a pagar e ainda reclama do serviço, ao empreendedor que exporta dezenas de contentores por mês, cumpre tudo à risca, paga e não reclama. Ao contrário dos empresários estrangeiros que por aqui pululam nos quais a regra é a exigência e o perfeccionismo, pois estão a jogar fora de casa e como tal não brincam em serviço e querem mostrar que são os melhores. Estamos a milhas deste espírito.
Todo e qualquer empreendedor procura o lucro, mas acima de tudo e para isso deve prestar um serviço melhor ou diferente da concorrência, se procurar o lucro a qualquer custo é certo que esse custo será demasiado elevado ou até mesma fatal. Há que fazer as coisas certas ao invés de fazer bem as coisas, e como diz o povo "depressa e bem não faz ninguém", sendo que eu prefiro o ditado espanhol "sin prisa, pero sin pausa", pois muito temo que a nossa crise muito contribua para a pressa dos nossos patrões em exportarem para enriquecerem. E essa pressa a juntar ao provincianismo e ignorância foi fatal para alguns que já conheci por estas bandas.

sábado, 25 de agosto de 2012

Ingovernável? É o socialismo, estúpido!

Portugal é um país de empurrar os problemas com a barriga, do bola para a frente e fé em Deus. "Logo se vê" ou "depois vemos isso" são chavões demasiado populares quando toca a enfrentar um problema. Porquê dedicarmos o nosso tempo a algo chato e aborrecido quando o podemos fazer amanhã? Nas mais pequenas coisas às grandes decisões é algo transversal a todo o nosso povo. A classe política, não sendo extraterrestre nem sequer importada do estrangeiro, não foge à regra. Não gostando de problemas fingimos igualmente que eles não existem, abraçando também o socialmente exigível de agradar a tudo e todos, pois encontrar uma solução pressupõe fazer as coisas certas e não as coisas bem, sendo que estas últimas tendem a agradar a uma parte em prejuízo de outra. Assim o imediato é tudo, o longo prazo não se vislumbra pelo que não importa.
Isto vem a propósito do desastre da receita fiscal até à data. Portugal não cresce desde que entrou no séc. XXI, tivemos uma tristemente célebre década perdida a coleccionar défices consecutivos, vai daí o défice, ou o monstro, é o alvo a abater. E como? Para os iluminados que nos governam mais défice é igual a menos colecta de impostos, logo subam-se estes últimos. Um político que pense assim nem uma mercearia é digno de gerir. Coitado do Sr. Zé lá da esquina se decide aumentar o preço das alfaces, assim sem mais, só porque está a fazer menos caixa ao final da semana... Os iluminados que nos governam demonstram pelas suas práticas que julgam que obtêm menos receita fiscal, não porque o país não cresça, mas porque tem baixos impostos. Tal alheamento da realidade já tem tiques de autismo, principalmente quando a única coisa a crescer, de há muitos anos a esta parte, é despesa do Estado. Até o Sr. Zé da mercearia lá da esquina sabe que são as despesas que ele tem que medem o lucro das alfaces que vende...
Mas no fundo até somos um país porreiro, de amigalhaços, de palmadas nas costas (um dos hábitos mais irritantes do povo português), ferir susceptibilidades não é connosco. Por isso reformas e mudanças até se vão fazendo, mas partindo deste principio, como podemos ver no modelo de pseudo-privatização da RTP, a coisa concessiona-se a um amigalhaço e pronto, já podemos dizer que se mudou alguma coisa para tudo continuar na mesma.
Modernos? Também somos. Até já temos um governo liberal. Tão liberal que tem vindo a mostrar que não faz falta: temos o Tribunal Constitucional para isso. Qual programa de governo qual quê, se não for decalcado da Constituição não serve. Até podemos vir a caminhar para uma sociedade socialista sem governo. Digam lá que Portugal não inova?

sábado, 7 de julho de 2012

Notas soltas sobre um país visto ao longe

O caso da licenciatura do Ministro Relvas mostra como somos um país de doutores. Não importam as competências pessoais e profissionais, num país desprovido de mérito só conseguimos ser reconhecidos com um canudo na mão. Jogo de aparências, complexo de inferioridade, sociedade de castas, chamem-lhe o que quiserem, na realidade é uma sociedade sem valores, que reconhece as pessoas pelo titulo que ostentam e não pelas suas  capacidades. Relvas apenas seguiu a corrente.

Enfermeiros contratados a quatro euros à hora não devia chocar ninguém. Já analisaram a quantidade de vagas em enfermagem disponíveis todos os anos nas universidades? Estamos perante um simples caso de oferta e procura, nada mais. O desfasamento entre a oferta educativa e o mercado de trabalho em Portugal é brutal, mas continuamos alegremente a assobiar para o lado enquanto nos escandalizamos pelos baixos salários de uma horda de licenciados desnecessários. Não há inocentes nestes casos. Que sirva, pelo menos, para repensar todo o sistema de ensino superior, onde a asneira começa no sistema de acesso que empurra milhares de estudantes para cursos que não queriam como primeira opção, bem como desnecessários ao nosso mercado tal a enormidade de vagas disponíveis. Grande parte da nossa crise passa por aqui, onde a muitas bolhas acabámos de juntar a da educação.

O General Romano Galba escreveu que "Há, na parte mais ocidental da Ibéria, um povo que não se governa, nem se deixa governar". Bem podia estar a referir-se à actual situação do país e em particular ao recente acórdão do TC sobre os cortes no subsídios da função pública. Em Portugal o homem sonha, o Governo decide e a Lei limita. Há décadas que assim é. Pelo menos talvez assim quem nos governa comece a trabalhar a sério, ao invés fazer sempre as coisas pelo caminho mais fácil. O facilitismo é o caminho dos incompetentes e dos fracos e destes não reza a História a não ser por maus motivos. Há muito por onde cortar sem ser àqueles que mal têm para comer e pagar as contas do lar. Não o fazer é alimentar a monstruosa mentira que o Estado português gasta correctamente o dinheiro dos nossos impostos.

A contestação saiu à rua. Não há dia em que não haja gritos e insultos a qualquer membro do governo onde quer que ele vá. Não que seja injusto, mas dizem que Paris nesta altura do ano é muito agradável. Acho que a malta anda a reclamar a factura ao funcionário errado, se bem que este até agora não mostrou lá muito serviço, já que a casa está a ser gerida em regime de outsoursing (leia-se Troika). Mas quem nos governa ou é muito honesto ou muito ingénuo, caso contrário, para acalmar os ânimos à malta, já tinham prometido um plano de crescimento conjugado com um plano tecnológico, um aeroporto em Curral de Moinas, uma plataforma logística em São João da Murrunhanha, e sei lá, talvez mais 150 mil empregos, não?

sábado, 30 de junho de 2012

Reflexão sobre Angola, Portugal, o trabalho e outras coisas

Depois de uns meses em Angola sem pausas e com as terras da Lusitânia a cheirarem a verão o cérebro começa a entrar em default.
Como é a vida em Angola? Costumam perguntar-me amiúde. Numa palavra: cansativa. Mas também gratificante. Para um habitante das terras do hemisfério norte, que toma por seguro e garantido coisas banais como água na torneira e energia eléctrica, chegar a casa numa sexta-feira depois de um dia de trabalho e não ter energia e o gerador ir à vida não é fácil e pode ser um verdadeiro pesadelo. Há que ter estofo. Aqui nada é garantido e tomar um duche de chuveiro chega a ser um verdadeiro luxo depois de 15 dias sem água da rede. Mas a melhoria é notável, pois há 5 anos atrás a situação era muito mais difícil, afinal reconstruir um país depois de 30 anos de guerra é tarefa hercúlea (e os Angolanos estão de parabéns pelo que têm feito até aqui).
Depois o trânsito. Lento e caótico. Vivo a cerca de 2 km apenas do local de trabalho e já demorei uma hora para chegar a casa. A pé demoro apenas 10 minutos. É quase impossível marcar compromissos a horas certas, a incerteza é a única certeza. Seria no entanto injusto não dizer que melhorou; as novas vias facilitaram muito, a sinalização é mais eficaz e a policia de trânsito tem um papel importantíssimo na circulação rodoviária. Há locais onde os agentes reguladores são autênticos heróis, pois na sua ausência é impossível circular.
Depois o trabalho em si. Não deixa de ser irónico num país onde, por conjuntura da reconstrução das infraestruturas, as coisas acontecem devagar, mantermos um ritmo de trabalho endiabrado. Se julgam que nas economias avançadas se trabalha depressa venham conhecer Angola; aqui é tudo para ontem. Talvez seja a crise permanente que se vive em Portugal que obriga as nossas empresas aqui a compensar as perdas de lá; não sei, ou talvez o facto de um expatriado não ser barato, o certo é que aqui trabalha-se e muito. Mesmo. Ainda por cima para quem escolher uma das profissões mais stressantes do mundo... Se os transportes e logística na Europa já não são fáceis, aqui a coisa só vista, porque contada ninguém acredita. Afinal, como diz um velho amigo director de uma agência de navegação: "toda a actividade económica depende de nós, mas, ao mesmo tempo, ninguém dá por nós, somos os low-profilers da economia". Um exemplo da dependência? Cerca de 200 emails recebidos por dia e pelo meio-dia a memória do telefone já esgotada entre chamadas recebidas e efectuadas... É obra!
Por tudo isto, Angola não mata, mas mói. Quando vou de férias tenho o cérebro literalmente em água. Mas ao mesmo tempo é deveras gratificante, pois com todas as dificuldades do meio ganhamos competências inimagináveis para quem vive no conforto do hemisfério norte. Ganhamos uma visão da organização a 360º, a gestão ganha uma nova dimensão e aqui, melhor que em qualquer lugar, percebemos Mintzberg quando diz que o gestor não deve estar acima na organização num organograma em 2D, mas sim bem no centro num esquema em 3D. E ainda nos tornamos criativos. Quando a internet vai abaixo, quando o sistema do banco não funciona, quando o Porto não consegue localizar aquele contentor tão importante, só com muita imaginação atingimos o sucesso. É por estas e por outras que costumo brincar a dizer que se os expatriados em Angola regressassem todos ao mesmo tempo para Portugal iriam contribuir ainda mais para o desemprego, pois cada um podia substituir vários quadros de uma assentada. Não por acaso um amigo que regressou há pouco ouviu dos colegas para ter mais calma e ir mais devagar porque o trabalho não acabava e havia mais pessoas que o podiam fazer... Talvez por isso a pergunta do milhão é porque não trabalhamos nós em Portugal desta forma e deixámos o país entrar em falência? Os salários explicam alguma coisa, mas, certamente, não explicam tudo.

sábado, 23 de junho de 2012

A nossa cauda curta


"A economia focalizada no hit, (...), é o resultado de uma época em que não havia espaço suficiente para levar tudo a todos: não havia espaço suficiente nas prateleiras para todos os CD, DVD e jogos de video produzidos; não havia canais de televisão suficientes para transmitir todos os programas; não havia ondas radiofónicas para criar toda a música criada; e muito menos horas suficientes num dia para inserir tudo na programação.
Este é o mundo da escassez mas, agora, com a distribuição e comércio online, estamos a entrar no mundo da abundância. As diferenças são profundas. (...)
A grande maioria dos produtos não está disponível numa loja perto de si, pois a economia do comércio tradicional focalizado nos hits vê-se na necessidade de limitar a escolha. Quando se torna possível diminuir drasticamente os custos de conexão entre a oferta e a procura, isso muda não apenas os números, mas toda a natureza do mercado. Não se trata de uma mudança meramente quantitativa, é também qualitativa. A acessibilidade nos nichos revela a procura latente de conteúdo não comercial. Depois, à medida que a procura transita para os nichos, a economia que os providencia irá melhorar ainda mais, e assim por diante, criando uma espiral de feedback positivo que irá transformar indústrias inteiras - e a cultura - nas próximas décadas."

Chris Anderson, "A Cauda Longa" (Actual Editora)
Nota: negritos meus.

Este livrinho de Chris Anderson devia ser leitura obrigatória em Portugal para percebermos de que se fala quando os nossos líderes acenam com os chavões da competitividade, produtividade, necessidade de diversificar e exportar. Falar por falar sem fazer não paga imposto e como tal a verdade é que temos um país de cauda curta. Há demasiado tempo.
Pelas frases acima descritas é torna-se mais claro o porquê da nossa terceira falência em três décadas. Enquanto mantivermos a ditadura dos monopólios e o proteccionismo aos instalados não sairemos da cepa torta; iremos manter-nos arcaicos, atrasados e obsoletos. Não perceber que a única ditadura a existir deve ser a do consumidor, e que só providenciando a este uma verdadeira e abundante liberdade de escolha a nossa economia florescerá, é esperarmos uma nova vinda do FMI daqui a uns anos. As empresas exportadoras já perceberam isso, falta mudar o paradigma cá dentro.
Manter a clientela satisfeita é para quem compra, não para quem vende. A satisfação do cliente no nosso país não passa de papel nas universidades; vide como exemplo disto as telecomunicações e a energia. O suposto liberalismo de um Governo devia passar obrigatoriamente por aqui e não apenas por reduzir salários e aumentar impostos - que encurtam ainda mais a cauda pela redução da liberdade de escolha - por imposição de uma troika qualquer.

domingo, 10 de junho de 2012

Me cago en la leche!

E pronto, conforme há muito se adivinhava nuestros hermanos estenderam a mão: nada mais nada menos que 100 mil milhões, só para a banca.
Como a economia deles não é a nossa, nem a Grega, outro galo canta, pois consta que não terão condições tão apertadas como os restantes. A ver vamos, pois o resgate Irlandês também foi para sanear uma bolha financeira e o povo é quem está a pagar; muito temo que a coisa não seja assim tão simples e que "a crise da vizinha será pior que a minha"Ao contrário do que por cá se viu ali os responsáveis estão já apontados e há quem peça as devidas responsabilidades.

Agora venha o filme do costume de atirar as pedras aos malvados mercados, ao neoliberalismo, ao capitalismo e seus afins.
Surpreende-me como muita gente não compreenda ainda que neste sistema financeiro não podemos deixar cair um banco, pelo risco sistémico que comporta para os restantes, pelas constantes intervenções estatais na banca e não porque estes gozem de liberdade para a sua acção. Foi a constante intervenção estatal, muitas vezes directa (interferindo com a gestão da organização) ou através de incentivos ao crédito barato, ao investimento público, às PPP's e outros que tais que criaram a sensação "too big to fail". Isto é socialismo puro. Num sistema bancário saudável, tal como noutros sectores, só se evita o risco sistémico afastando por completo as intervenções estatais, por forma a que as organizações adoptem mecanismos e práticas de gestão que as protejam das asneiras dos outros. Se em qualquer empresa há um indicador básico para medir a sua exposição que diz que o peso de um cliente não deve ser superior a 15% do volume total das vendas, porque não adoptam os bancos princípios semelhantes ao invés de mergulharem de cabeça em activos de risco com enorme exposição? Não será porque sabem que existe um para-quedas estatal?
Reafirmo assim, aquilo que há muito venho defendendo: esta não é, em primeira instância, uma crise económica e financeira, mas sim uma crise de práticas de gestão, onde erram os governos que se metem constantemente onde não são chamados, esquecendo o seu papel de mero regulador ao invés de jogador, como erram as organizações que adoptam práticas de risco. No fim de contas pagamos todos uma factura demasiado elevada.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Uma boa notícia para a economia

Deparei este fim-de-semana com uma interessante notícia, que há primeira vista poderia ser má, mas que, no entanto, pode ter uma repercussão positiva na economia: a redução dos bónus aos executivos de Wall Street.
Os gestores cometemos muitas vezes o erro de ignorar como as nossas práticas influenciam a economia de uma forma muitíssimo mais vasta do que parece. Tendemos a acreditar que as nossas técnicas e decisões ficam entre as paredes das nossas organizações, influenciando apenas os resultados obtidos pelas mesmas, descurando que são essas mesmas organizações que compõem os "malvados" mercados ditando as suas tendências. Vivemos para o exercício de contas e pouco mais. Ora a crise do subprime norte-americano provou, se ainda dúvidas houvesse, que assim não é, pois a mesma surgiu pura e simplesmente de práticas de gestão irresponsáveis por parte dos executivos das instituições financeiras. Não é por acaso que Henry Minztberg no seu "Gestores, não MBA's" já avisava o que estava para vir graças aos novos super-heróis da gestão e à forma como eram formados, tal como voltou em 2009, já depois da crise rebentar, a criticar de forma contundente os bónus que hoje, finalmente, reduzem.
Os bónus, tal como e a quem são atribuídos, são um fim que justifica os meios. Foram-no para a crise financeira, assim como o estão a ser para a crise da dívida soberana europeia: juntem no mesmo saco políticos medíocres com ânsia de poder, leia-se votos, um povo que acredita no milagre da multiplicação dividindo e executivos sedentos de lucro e o resultado está à vista (para quem julga que o fenómeno é só do outro lado do atlântico pode ver aqui como anda o Deutsche Bank).

"In something as complex as the contemporary large corporation, how can success over three or even 10 years possibly be attributed to a single individual? (...)
I believe that if you do pay bonuses, you get the wrong person in that chair. At the worst, you get a self-centered narcissist"

Infelizmente quer-me parecer que esta repentina mudança nos bónus dos financeiros deve-se mais à crise propriamente dita, do que a uma mudança de paradigma. A ver vamos, mas para bem de todos esperemos que não e que de uma vez por todas compreendamos que é aquilo que fazemos nas nossas empresas que dita o estado da economia, que influencia os mercados, e vice-versa. Pois como escreveu John Roberts, na sua excelente obra, sobre a organização das empresas e a economia, "A Empresa Moderna":

"Na verdade, numa economia moderna, na maioria dos contextos, um indivíduo no seu emprego não produz, de facto, nada que queira pessoalmente consumir. Em vez disso, deverá trocar o conjunto limitado de coisas que produz pela vasta maioria de bens e serviços que realmente pretende e que são produzidos por outros".

Posto isto creio que todos compreendemos e aceitamos que procurar resultados a troco de chorudos bónus, ao invés de criar organizações eficientes e equilibradas, não é lá muito saudável. É que às tantas ninguém compra o que supostamente produzimos e a coisa estoira...

sábado, 17 de setembro de 2011

Sobre o desenvolvimento

No conforto do nosso mundo ocidental temos o desenvolvimento como um conceito "nosso", que define o próprio status das nações. O ocidente personifica o mundo desenvolvido e separa-o dos outros, o que leva a que quando pretendemos definir o conceito nem sequer tentamos, basta para isso apontar um qualquer país do hemisfério norte.
A experiência em África mostrou-me que um país é tão mais desenvolvido quanto mais eficaz a evitar o desperdício e a gerir os seus recursos, materiais e humanos. A pobreza aqui não é por falta de recursos, mas antes causa de um gritante desperdício. Como exemplo veja-se Luanda, servida por dois rios, o Kwanza a sul e o Dande a norte, no entanto a falta de água faz parte do dia a dia, ao mesmo tempo que é frequente vermos ruas transformadas em rios por rebentamento de condutas. A reciclagem é ainda uma miragem por estas bandas, a burocracia do país em nada inveja a lusitana e o país importa quase tudo, com um custo muito superior ao que pagaria se houvesse produção local.
Assim, os países desenvolvidos não o são por serem ricos ou seguros, mas porque são eficazes na gestão dos seus recursos; as suas economias funcionam porque se combate a corrupção, a sua justiça é célere porque não vive numa teia legislativa complexa e insensata que se adia ad eternum, as suas instituições funcionam porque não se temem as decisões urgentes e necessárias e a coisa pública limita-se ao essencial.
Nesta perspectiva, por muito que nos custe admitir, estamos ainda a uns bons passos de nos considerarmos desenvolvidos. Não basta abrir a torneira e ter água potável, electricidade 24 horas por dia, auto-estradas com fartura ou todas as criancinhas com um portátil na escola, é preciso também que a justiça seja rápida, que a corrupção seja eliminada e a burocracia reduzida ao essencial. É preciso que os nossos cidadãos sintam que vale a pena o esforço e que o mérito é premiado sem cartões de militante, ao invés de serem tratados como meros números de identificação fiscal. As empresas devem ser tidas como criadoras de riqueza ao invés de maquiavélicas organizações às quais há que dificultar a actividade com taxas, taxinhas, alvarás, licenças e o diabo a quatro. Há que acabar com as discussões à volta dos pentelhos e atacar o que realmente importa, só então seremos um país desenvolvido.
Somos, então, subdesenvolvidos? Não. Pois como dizia Peter Drucker: "não há países subdesenvolvidos, há países subgeridos".

sábado, 3 de setembro de 2011

Sobre a responsabilidade social das empresas

Nos dias de hoje é um dos temas da moda e parece não haver organização que não queira ser socialmente responsável, o que é um perfeito disparate.
A responsabilidade social é algo inerente à mera existência de qualquer empresa.
As empresas não são "ilhas" na sociedade, não são órgãos isolados da mesma, mas sim parte integrante de uma vasta e complexa teia de relações, pois se através das suas actividades procuram preencher as lacunas do mercado, oferecendo novos ou melhores produtos, ao mesmo tempo atribuem um valor ao trabalho dos seus colaboradores, devendo retribuir na sua justa medida, sempre respeitando as suas obrigações legais. Muito resumidamente, isto é serviço público.
Qualquer empresa que não cumpra com estes pressupostos, por muita certificação ou reconhecimento social que tenha, que é uma técnica de marketing fantástica, é pura e simplesmente irresponsável. Ponto.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Gestão para totós

Para quem tanto defende os trabalhadores esta malta parece não fazer a mínima ideia do que é necessário haver para pagar salários e manter regalias.
Há livrinhos muito simples e acessíveis que ajudam; afinal de contas gerir um país não é muito diferente de gerir uma empresa.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

E a Gestão, pá?

Na vertigem da presente crise mundial é já quase um dado adquirido, pela opinião pública, o falhanço dos economistas pelo estado de coisas da actualidade.
Basta dar uma vista de olhos pela blogosfera, jornais ou revistas para ver como as críticas se multiplicam neste sentido, no entanto, a meu ver, andamos a apontar baterias ao alvo errado. Os economistas não são mais que teóricos/analistas óptimos a explicar o que aconteceu, mas péssimos a prever o que está para vir, tal a quantidade de variáveis com que trabalham. Então e os Gestores? Afinal é o que acontece nos escritórios das empresas pelo mundo fora que irá ditar o estado da economia. É aquilo que "eu" enquanto director ou presidente de uma empresa faço e decido no dia-a-dia da empresa que irá influenciar o meio onde esta se insere; pois as empresas não são entidades isoladas, mas membros activos de uma sociedade. Não será a tão diabólica especulação financeira, simplesmente, uma prática de gestão nociva?
É verdade que, economicamente falando, podemos escolher ser Keynesianos ou Liberais, mas, em última análise, a forma como gerimos, seja a coisa pública ou privada, resume-se a sermos responsáveis ou irresponsáveis, pois o que importa é o resultado final e nada mais. Ou somos competentes ou não. Mais simples impossível. O mesmo se aplicará, como é óbvio, aos políticos.
Enquanto não começarmos a discutir os modelos e práticas de gestão da actualidade de nada adiantaremos e jamais mudaremos este estado de coisas, pelo contrário só o agravaremos, pois não se trata apenas das práticas das empresas e organizações públicas, mas igualmente daquelas que são ensinadas nas universidades pelo mundo fora. Henry Mintzberg, uma das poucas vozes que se fazem ouvir, há algum tempo que alertou para este facto na sua excelente obra "Gestores, não MBA's" (editado originalmente em 2004), onde numa brilhante crítica ao ensino da Gestão acaba por dar uma verdadeira lição sobre como se gere, quer se tratem de empresas, ONG's ou países, como ao mesmo tempo avisava já para o que estava para vir.
No início dos 90 James Carville lembrou Bill Clinton que "é a economia, estúpido" e a malta parece que gostou e não mais esqueceu, mas e a Gestão, pá?!

terça-feira, 12 de abril de 2011